Opinión
Não se pode fazer nada por Venezuela?
Acaba de passar e, no entanto, já o temos visto. Mais uma vez, os USA tratam um país cujo governo detestam, neste caso a Venezuela, como o seu pátio traseiro. Permitem-se raptar o presidente e julgá-lo por uma, bastante ridícula, acusação: dirigir um entramado de narcotráfico que, supostamente, está detrás do incremento no consumo de drogas entre a sua juventude, apesar de que a Venezuela não produz esse fentanil que inquieta à sociedade norte-americana. Algo tremendamente parecido sucedera em 1990, mas a memória parece ter-nos abandonado. A memória e a racionalidade.
O fantoche de Trump pode sair nos meios do mundo inteiro a assegurar que pensa governar Venezuela até que se produza uma transição segura, sem as elites dirigentes do mundo qualificarem imediatamente o episódio de ocupação. Putin na Ucrânia arremete contra o direito internacional, mas Trump pode bombardear Venezuela, ocupá-la e até atrever-se a pronunciar no seu discurso que as companhias norte-americanas devem recuperar as extrações petroleiras que lhes foram roubadas (?) sem que ninguém lhe solicite render contas. É fácil notar que o presidente de Estados Unidos nem sabe uma palava de história nem consegue construir análises profundas – Como é isso de que no mundo existem “bad people”? Onde é que estamos? Na aula de religião para pré-escolares?
Porém, o problema não é apenas Trump. Se fosse assim, bastaria com detê-lo. A partir da II Guerra Mundial, nasceram uma série de maravilhosas instâncias internacionais com perfil de banda desenhada: consagravam-se a vigiar o mundo e manter os equilíbrios, como se tivessem superpoderes contra o Mal. Porque não intervêm agora? Porque nunca foram mais que uma carcaça vazia. Talvez o problema real seja a falta de liderado ético no atual momento político. Todo o mundo parece concordar com que não é conveniente incomodar o tio Sam a contrariar a sua ordem de nos armarmos até aos dentes. Não se pode dizer, alto e claro, que a paz é o único caminho. Não se pode acusar Trump de praticar uma ação colonial, como foram ações assassinas os ataques de lanchas que a precederam. Não se pode denunciar o abuso nem lançar uma comitiva diplomática para exigir justiça com fereza, ao tempo que se cuida de evitar uma guerra mundial. Não se pode argumentar que o chavismo, mesmo enfrentando problemas e limitações, como todos os projetos políticos, persegue a justiça social e desenvolve estruturas de comunidade em meio de um ambiente hostil —o crescimento do fascismo internacional e as ricas elites no interior.
Há mais de dez anos participei, convidada por Maduro, num Encontro de Intelectuais em favor da Humanidade: todas as que integramos essa delegação tivemos oportunidade de ver a luz e as sombras do desafio que supunha o socialismo para o século XXI. Afinal do encontro, encomendou-se-nos a missão de darmos a conhecer nos nossos países a realidade venezuelana que observáramos. Porém, em que meios poderíamos difundir a mensagem? O capital tem tudo bem atado, enquanto diferentes micropoderes insistem em que não se pode fazer nada; só olhar para o espetáculo, porque, como diz o próprio Trump: “foi como um programa de televisão”. Pois Deus salve América, porque parece difícil que se salve soa! Entretanto, seguramente algo podemos e devemos fazer.
Los artículos de opinión no reflejan necesariamente la visión del medio.
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