Literatura
Begonha Caamanho, María Xosé Queizán e Georges Brassens no Calvário
Nas últimas semanas tive a rara fortuna de trabalhar com três textos em volta de Begonha Caamanho, no meu emprego como editor da Através, a chancela editorial da Associaçom Galega da Língua (AGAL). São os textos que conformam o volume Begonha Caamanho, uma das nossas, da autoria de Charo Lopes e Lara Rozados os dois maiores e de Isaac Lourido um terceiro texto introdutório, construído a partir da leitura daqueles.
Dada a minha posição de editor e de pessoa economicamente dependente do sucesso de livros como este, talvez não seja adequado que dedique muito espaço neste texto a loar o seu rigor, a sua honestidade nem mesmo, nalguns trechos, o delicioso da sua prosa, embora todos estes aspetos sejam incontornáveis na sua leitura. Preferia, simplesmente, especular.
Especular. Jogar com os espelhos, dir-se-ia. Especular. Uma palavra transparente esta: a sua natureza prismática, poliédrica, informa-nos também do seu âmbito semântico, o das luzes, os reflexos, as visões. Não é a única palavra desse espaço significativo que joga com as imagens; também, por exemplo, a pessoa que lê é lente na medida em que deixa passar ao seu través a luz de um texto de uma maneira singular e irreplicável. Mas não posso ignorar o facto de que foi especular uma das palavras utilizadas por Lara Rozados no seu texto (em específico: “este jogo especular”), como também não que a palavra causou incompreensão à pessoa que fez a correção linguística, que decidiu destacá-la, o que sem dúvida está relacionado com que eu a deixasse cair no parágrafo acima. Quero então, também eu, propor um jogo especular: uma especulação.
O trajeto parte da Begonha Caamanho menina, que –conta Charo Lopes– toma as primeiras aulas de língua francesa numa academia do bairro viguês do Calvário e que tem por professora das tais aulas a escritora María Xosé Queizán. Após uns meses de docência, os caminhos bifurcam-se e só mais de uma década depois é que voltam a juntar-se, no trabalho conjunto na Rádio Noroeste. Queizán não se lembrava de Caamanho e esta, para lhe demonstrar a coincidência passada, canta-lhe uma música que costumavam cantar em aulas, Le petit cheval, um poema de Paul Fort musicado por Georges Brassens.
A música conta a história de um cavalo branco pequeno que avança, à cabeça de todos os rapazes da sua vila, guiando-os entre a chuva para progredir através do campo. Era o simples avançar que mantinha o cavalo esperançado, até que um dia, subitamente, é atingido por um raio e morre no instante, sem conhecer o bom tempo nem a primavera. São vários os paralelismos —felizmente não todos— que alguém poderia encontrar entre a história do valente cavalo e a de Begonha Caamanho.
Georges Brassens (1921-1981), como Begonha, nasceu num outubro e faleceu num outro outubro de algumas décadas depois. Brassens, uns dias após os 60; Begonha, uns dias após os 50. Como Begonha, começou a sua obra serodiamente e, sem cair na crítica fácil, nunca renunciou à insurgência. Encontramos no seu repertório ataques à pena de morte em forma de gorilas que violam juízes num zoo, enterradores que fazem o seu trabalho com a aflição de quem beneficia da morte alheia, camponeses que passam a vida a cavar para outrem e que o único que cavam para si é o túmulo, amantes que descobrem escandalizados que a namorada os engana com o marido dela, jovens que tomam os bancos dos parques para se beijarem em público e imaginarem a vida toda, mulheres na praça do mercado que se unem e se organizam para espancarem a polícia.
Para além de que exista ou não uma inspiração explícita, há sem dúvida lampejos na obra de Brassens que se refratam na literatura de Caamanho. À luz do texto de Lara Rozados, vemos brilhar em específico dois vértices, dois pontos em que as trajetórias se cruzam. Um deles, o desejo profundo de contar a história de quem perdeu, mesmo –e sobretudo– quando ela incomoda; o outro, a Penélope subjetificada, para além da dicotomia santa/bruxa.
Quanto àquele desejo, Rozados sugere intertextualidades de Circe ou o pracer do azul com a tragédia de Eurípides As troianas, porquanto “mesmo na época antiga houve quem escreveu do ponto de vista das vencidas”. Quem conhecer a obra de Brassens talvez sinta, ao ler essas palavras, como pano de fundo os acordes de La tondue. O cantautor de Sète dedicou esta música às mulheres francesas que, após a queda do nazismo, foram humilhadas publicamente pela Résistence por se terem deitado com soldados alemães durante a ocupação. Lamenta, na música, não ter-se atrevido a defendê-las quando as passeavam em carros com as cabeças rapadas. Só conseguiu, diz, apanhar do chão um caracol do cabelo de uma delas. Olhado com receio pelos improvisados cabeleireiros, compreende que nunca será condecorado pelos vencedores e coloca na lapela o caracol, como a sua própria medalha da honra das proscritas.
Relativamente a Pénélope, admira a maneira como, na década de 50, Brassens constrói um sujeito autónomo e dialoga com ele. Não destaca a sua fidelidade de esposa modélica, não suspeita da sua marotice diabólica. De facto, questiona estas duas categorias: pergunta, simplesmente, se pela sua mente pia não passaram, durante os anos de espera, quaisquer pensamentos impuros; se nunca contou, em sonhos, novas estrelas no céu de um leito diferente; se nunca desejou encontrar no caminho esse anjo, esse demo que, com as suas setas malignas, devolve a carne às estátuas mais frias e arranca as suas folhas de vinha. Sem aguardar pela resposta, oferece consolo e redenção, mostra compreensão: não há porquê punir um coração que perde o rumo e galopa, é esse o pecado original, a cara oculta da Lua de mel: eis o preço pelo resgate de Penélope.
Ainda, podia ser La non demande en mariagea banda sonora do artigo —recuperado na íntegra por Charo Lopes— que Begonha Caamanho escreveu contra a instituição matrimonial, também entre pessoas do mesmo sexo; podia ser ela a autora de uma ode ao valor supremo da amizade como Les copains d’abord –que acaso seria Les copines d’abord– e podia ter sido ela quem, como Brassens, dedicasse a fortuna económica que lhe brindasse o êxito a comprar casas às amigas mais pobres. Quiçá o espaço comunal, de portas abertas, que foi a Casa da Comboa, alugada por Begonha e algumas amigas na Ilha da Arouça da qual nos fala Charo Lopes, fosse qualquer coisa parecida com o Moulin de la Bonde, que o francês comprou para os seus em Crespières. Foi aquele, diz Clémentine Deroudille, “um mundo à parte em que as obrigas, se existem, são aceitas porque são elegidas”.
Até mesmo a honra que a Académie Française outorgou em vida ao poeta é hoje oferecida pela Real Academia Galega à memória da romancista. Um lembrete de que o jogo de espelhos é insoslaiável, que estamos a vida toda decidindo em quais olhar-nos e que Begonha Caamanho soube muito bem que luzes mereciam alongar o seu brilho para, como as estrelas sobre as nossas cabeças, continuarem a cintilar anos depois de terem rumado para a fossa comum do tempo.
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